Campeonato Brasileiro 2008

I Open Amazonas de Judô


Artigos
O Treinamento Esportivo
11/09/2006
Everson Carlos da Silva
O judô é o caminho para a utilização eficaz das forças física e espiritual. Treinando os ataques e as defesas, o corpo e a alma se tornam apurados e a essência do judô torna-se parte do próprio ser. Desse modo, o ser se aperfeiçoa e contribui de alguma forma para valorizar o mundo. Esta é a meta final da disciplina do judô. Todo aquele que pretende seguir o caminho do judô deve inserir este mandamento no coração.

Jigoro Kano

Uma metodologia do treinamento esportivo tem por objetivo possibilitar ao atleta atingir alto nível de preparação para as competições importantes. Durante esse processo, a imposição sistemática das sobrecargas tem como propósito a quebra de homeostase orgânica, a fim de atingir a adaptação do organismo às demandas impostas, a esse fenômeno chama se supercompensação. A adaptação ao treinamento responde de modo específico WEINECK, 1989; WEINECK, 2000; HAMIL & KNUTZEN, 1999; FORTEZA, 2001; VERKHOSHANSKI, 2001.

Segundo VERKHOSHANSKI 2001 o treinamento esportivo consiste em:

um processo pedagógico multilateral que objetiva a superação dos limites em situações de confronto máximo, tanto físico quanto psíquico, portanto, não há espaço para erros, pois, o erro será o comprometimento da saúde do Homem


Figura 1 - Fatores principais que determinam ou limitam a performance.
adaptado de VERKHOSHANSKI, 2001
 
O judô - caracterização motora e fisiológica

A participação com sucesso em competições de judô depende de elevado nível técnico-tático tendo como suporte resistência aeróbia, potência e capacidade anaeróbia, força e flexibilidade LITTLE apud FRANCHINI, 1998. Os esforços realizados, durante o combate, são intermitentes e de alta intensidade. A produção de lactato é elevada sendo os intervalos de descanso entre os combates curtos, como conseqüência, a recuperação da fadiga neuromuscular é incompleta DRIGO et al, 1994, FRANCHINI, 1998. Por apresentar esforço em movimentação acíclica em ambiente aberto, o componente físico serve apenas de suporte para aplicação do componente tático e técnico SCHMIDT, 1993; FRANCHINI, 1998. A metodologia do treinamento deverá priorizar a especificidade da competição NAVARRO apud CASTARLENAS & SOLÉ, 1997; VERKHOSHANSKI, 2001. Os autores acreditam que a aplicação de situações específicas promove maior motivação na execução do programa de exercícios, deste modo, a captação das reservas energéticas do organismo é maior, o que aumenta a capacidade de trabalho. O propósito da especificidade do treinamento é promover maior adaptação do organismo às exigências técnico-tática e psicológica da competição. FORTEZA, 2001 p.35.

O planejamento do treinamento deve adaptar-se a características individuais do atleta. A aplicação técnico-tática faz-se em função das características individuais do atleta e do oponente. Um fator de extrema importância durante o combate é desenvolver a capacidade de antecipar às ações do adversário por meio de mudanças de ação da situação de defesa para a de ataque ou vice-versa a qualquer momento. A manutenção desta eficiência em situação de fadiga lática é um fator decisivo para a vitória SILVA, 1988.

Ao considerar que as técnicas de judô, durante o combate, são executadas em velocidade máxima SILVA, 1988 e a força muscular se expressa nas formas dinâmica e estática sem que haja predomínio significativo de uma delas POLIQUIN, 1991; TORRES, 1991; FRANCHINI, 1999. Conclui-se que as ações técnico-táticas se manifestam em situação de extrema fadiga, apoiadas na capacidade resistência de força TORRES, 1991 & VERKHOSHANSKI, 2001 p. 93.

A velocidade dos movimentos é determinada pela potência do trabalho do organismo VERKHOSHANSKI, 2001. Durante a competição os esforços máximos e potentes, repetidos a custa de acelerações e arranques trabalho curto intensivo, se alternam com intervalos curtos de trabalho pouco intensivo. Assim, cargas físicas intensivas, caracterizadas por mudança rápida e brusca da estrutura de coordenação e ritmo de movimentos, conduzem a adaptações consideráveis dos processos metabólicos do organismo como a atividade do sistema cardiovascular, nervoso e respiratório. A grande excitação emocional durante tais cargas contribuirá para a perturbação das funções fisiológicas e psicológicas. A manutenção da eficiência dos movimentos é garantida pelo alto nível de precisão espacial. p.93.

Processo de adaptação das estruturas do aparelho locomotor ativo e passivo - como pensar a sobrecarga

Com objetivo de evitar possíveis danos a saúde do atleta, torna-se necessário entender o processo de adaptação das estruturas do aparelho locomotor passivo e ativo.

O aparelho locomotor ativo, composto por músculos, se adapta mais rápido a sobrecarga quando comparado às estruturas do aparelho locomotor passivo, composto por ossos, cartilagem hialina, discos intervertebrais, tendões e ligamentos WEINECK 1989, p.11. Os tecidos do aparelho locomotor passivo apresentam metabolismo braditrófico que se caracteriza pela pouca densidade de capilares sanguíneos presentes. Deste modo, necessitam de maior tempo para apresentar adaptação equivalente ao sistema muscular, que é bastante irrigado pelos vasos. Por tal motivo, estímulos intensos em tecido ósseo e cartilaginoso não devem ser aplicados durante a fase de recuperação. Tal procedimento causará esgotamento energético levando o indivíduo a uma adaptação bionegativa, que é prejudicial ao seu rendimento e principalmente a sua saúde WEINECK 1989, p.11.

Antes de exercitar os músculos intensamente, é fundamental a realização de aquecimento e alongamento. Determinado procedimento promove a melhora da capacidade elástica do músculo evitando possíveis lesões como: estiramentos bruscos, roturas musculares ou tendinosas.

No exercício de agachamento completo, por exemplo, a sobrecarga imposta sobre a coluna vertebral pressiona os discos, provocando alargamento e desidratação. Deste modo, a realização de exercícios de alongamento na coluna e aumento gradual da carga reduz o desequilíbrio causado no espaço interdiscal. Ao alongar há um rápido afluxo de água e substâncias nutritivas para o espaço interdiscal. Em treinamentos com cargas elevadas, o alongamento da coluna deve ser adotado antes e depois do exercício. Um modo mais eficaz de adaptar-se as essas exigências, seria dividir as unidades do treinamento ao longo do dia. A pausa entre as diferentes sessões de trabalho ajuda a acelerar a recuperação.

A busca da ótima relação arto-muscular deve-se ao desenvolvimento dos músculos antagonistas da ação principal; faz necessário determinar quais músculos apresentam maior carência de força; Alongamento destes alongamento por via reflexa deve ser evitado, utilização de grande número de movimentos, desenvolvimento dos músculos dorsais, abdominais e glúteos com finalidade de evitar lesões na coluna vertebral. BRENKE et al, 1990.

Proposta de trabalho de força e potência no judô

Desenvolver força e potência é fundamental para o atleta de judô FRANCHINI, 2000. Exercícios de levantamento de peso olímpico têm sido bastante utilizados nos programas de treinamento de potência em várias modalidades esportivas SUÁREZ, 1985. O treinamento de levantamento de peso emprega movimentos multiarticulares que combinam força e velocidade em elevada intensidade. Atletas treinados nesta modalidade esportiva possuem alta capacidade de desenvolver potência DINTIMAN et al, 1999.

No início do treinamento acarreta em hipertrofia significativa nos grupos musculares solicitados e desenvolvimento de resistência submáxima. O aprendizado técnico dos movimentos de levantamento olímpico tem por objetivo a melhora da coordenação intermuscular, isso possibilita maior capacidade de recrutar motoneurônios, pois, uma ação multiarticular e coordenada recruta grandes grupos musculares DINTIMAN et al, 1999; HAMIL & KNUTZEN, 1999; VERKHOSHANSKI, 2001. Segundo SUÁREZ 1995 a força e a potência desenvolvida por esses exercícios não prejudicam a habilidade, a agilidade e a resistência. Ao aproximar-se da competição, reduz-se o volume dos levantamentos até 60% com objetivo de melhorar o recrutamento muscular. A ativação muscular mantém-se pelo menos por 5 dias sem treino DINTIMAN et al, 1999, HAMIL & KNUTZEN, 1999).   

É importante acrescentar que, devido à impossibilidade do atleta manter o nível elevado de intensidade o ano todo se torna necessário construir, manter e reduzir a capacidade de rendimento. Neste processo, há atletas que atingem elevado grau de preparação com relativa rapidez, mantendo, contudo, sua forma desportiva durante curto período Simpatotônico, há outros que atingem a forma física de forma lenta, mas conseguem conserva-la por mais tempo Vagotônico RAPOSO, 1989. Estímulos de alta intensidade resultam em processo rápido de adaptação, porém, produzem adaptações menos uniformes ao organismo, portanto, menor grau de estabilidade. A alteração entre volume e intensidade é uma necessidade. O grande volume de treinamento de intensidade relativamente baixa, que se faz nas fases preparatórias, proporciona bases para um treinamento de alta intensidade e serve, também, como reforço da estabilidade de rendimento FORTEZA, 2001.

Capacidades coordenativas

Possibilita ao judoca a dominar ações motoras em situações previstas estereótipos e imprevistas adaptação de forma segura e econômica, assim como aprender novos movimentos esportivos relativamente rápidos FREY apud WEINECK, 2000, p.232. É uma das formas de exigências motoras mais treináveis WEINECK op cit, p.29.

O treinamento técnico

A técnica desportiva é uma grande parte da teoria, da metodologia e da biomecânica do esporte VERKHOSHANSKI, 2001 p. 83. A preparação física especial tem por meta PFE construir a estrutura biodinâmica da técnica que é:

  • crescimento do potencial energético;
  • crescimento de respostas fisiológicas que garanta o funcionamento da técnica em intensidade elevada;
  • possibilitar o aproveitamento do potencial locomotor que garante a realização de determinada tarefa motora.

A habilidade técnica não é a meta a ser atingida. É resultado da prática constante de um movimento ineficiente para o mais eficiente.

TAKESHITA op. cit. P.18 afirma que o aperfeiçoamento das técnicas de judô deve ser metódico e progressivo. A execução técnica em competição envolve mobilização de força rápida WEINECK, 2000.

O treinamento tático

As dificuldades em elaborar o treino tático SILVA, 1988: modo:

  • Pode haver muitos combates num mesmo dia,
  • O combate em pé e no solo tem caracterizações diferentes,
  • Há diferentes estilos de judô,
  • Atletas que atacam sempre,
  • Atletas que defendem e contra-atacam,
  • Atletas que preferem a luta de solo,
  • Atletas que recusam o solo,
  • Atletas que combatem muito flexionados,
  • Atletas que combatem mais direitos,
  • Atletas muito contraídos,
  • Atletas mais descontraídos,
  • Cada atleta tem seu repertório técnico,
  • O judô dos pesos mais leves é diferente dos pesados.



Autor do Trabalho
Everson Carlos da Silva

Esportólogo formado pela Escola de Educação Física e Esporte da USP. Competiu pelo Esporte Clube Pinheiros de 1995 a 2003 tendo conquistados títulos de expressão estadual e nacional. Trabalha com o treinamento de força e potência para atletas de diversas modalidades esportivas.   Atualmente é técnico da equipe de Judô da cidade de Barueri – SP, que vai disputar o Grand Prix Nacional de Judô.




BIBLIOGRAFIA

FRANCHINI, Emerson. I prêmio INDESP de literatura esportiva. Bases para detecção e promoção de talentos na modalidade judô. Publicações INDESP, vol. I, 1999.
 
SILVA, Monge da. Caracterização do esforço em modalidades desportivas mensuráveis e não mensuráveis – O judô como caso exemplar. Treino Desportivo no 10 – junho, 1988.

FORTEZA, A. Treinamento Desportivo: carga estrutura e planejamento. Phorte 1a edição, São Paulo, 2001.

TORRES, José Manuel. Caracterização do esforço em lutas amadoras. Treino Desportivo no 20 – junho, 1991.

DRIGO, Alexandre; AMORIM, Andréa; MARTINS, Carlos J; MOLINA, Renato. Demanda metabólica em lutas de projeção e de solo no judô: estudo pelo lactato sanguíneo www.judobrasil.com.br - estudos.

DINTIMAN, B; WARD, B; TELLEZ, T. Velocidade nos Esportes. Manole, 2ª edição, 1999.
 
CASTARLENAS, J.L. & SOLÉ, J. El Entrenamiento de la Resistencia en los Deportes de Lucha con Agarre: Una Propuesta Integradora. Apunts: Educación Física y Deportes 1997 (47) p. 81-86

DRIGO, Alexandre; AMORIM, Andréa; MARTINS, Carlos J; MOLINA, Renato. Judô na adolescência, capacidade aeróbia e anaeróbia, composição corporal e treinamento. Rio Claro novembro, 1995 www.judobrasil.com.br - estudos.

GRECO, P.J. VIANA, J.M. Os Princípios do treinamento técnico aplicado ao judô e a inter-relação com as fases do treinamento. Revista de Educação Física /UEM 8 (1): p. 37-43, 1997.

HAMIL, J; KNUTZEN, K.M. Bases Biomecânicas do Movimento Humano. Ed. Manole ltda. São Paulo, 1999.

WEINECK, J. Treinamento Ideal. Ed. Manole ltda, 1999.
 
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